Que Raul esteja convosco; ele está no meio de nós

KLEYSYKENNYSON CARNEIRO

 Maior artista que esse mundo já viu, o Maluco Beleza faria 74 anos nesta sexta. 30 depois de sua morte, sua obra ainda influencia gerações

Raul Santos Seixas nasceu em Salvador no dia 28 de junho de 1945. Neto de Raulzão e filho de Raul, Raulzito cresceu na capital baiana em uma família de classe média. O jovem teve um desempenho sofrível nos primeiros anos escolares; as notas baixas eram reflexo do desinteresse de Raul pelas matérias escolares: em vez de estudar, o menino sempre preferiu ouvir rock and roll e descreveu em uma de suas canções, “No fundo do quintal da escola”, um pouco do seu desânimo com o colégio:

“Enquanto você me critica, eu tô no meu caminho/Desde aquele tempo em que o resto da turma se juntava pra bater bola, eu já pulava o muro do fundo do quinta da escola/Não sei onde eu tô indo, mas sei que tô meu caminho/ Você esperando respostas, olhando pro espaço/ Eu tão ocupado, não me pergunto. Eu faço!” 

De fato, Raul estava no seu caminho. Na década de 60, a música já era o seu alicerce. Mudou-se para o Rio de Janeiro e começou a encantar artistas já consagrados como Jerry Adriani, que gravou “Doce, doce amor” e estourou no movimento Jovem Guarda.

Apesar do talento reconhecido, o sucesso de Raul não foi meteórico. O jovem artista se tornou produtor na CBS e trabalhou com artistas como Sérgio Sampaio. Somente num festival da canção, na década de 70, quando apresentou “Let me sing my rock and roll” foi convidado pra gravar e o reconhecimento veio. Nunca mais parou.

Sem perceber, Rauzito apadrinhou o gênero no Brasil.

Irreverente, desaforado, maldito e genial, Raul Seixas se tornou um dos maiores, se não o maior artista da história. Repare, não era o melhor cantor, nem o melhor músico, nem o melhor letrista; mas o conjunto de todas essas características, somado à irreverência, o transformam no artista genial que é. Poucos chocaram (e chocam) como ele.

O rei do rock brasileiro morreu em agosto de 1989. Sofrendo de diabetes e decidido a não parar de beber, Raul, que foi casado com cinco mulheres e acumulou centenas de amantes ao longo de toda a vida, morreu sozinho em seu apartamento no Rio depois de uma noite regada a álcool. As filhas do mestre Seixas quase não têm lembranças do pai; Simone Wisner Seixas, filha da americana Edith, nem chegou a conhecê-lo.

Destrambelhado, um anjo torto e inconsequente, Raul se tornou um deus no Brasil. Seu nome até hoje é cultuado. Morreu homem, virou lenda. Sua inquietude continua inflamando jovens, mudando pensamentos, salvando vidas – como lembrou o seu irmão Plínio Seixas, procurado por um empresário que pensou em se matar e desistiu depois de ouvir “Tente outra vez”.

Nesta sexta (28), Raul faria 74 anos. Fico me perguntando qual seria o posicionamento do roqueiro diante da situação política do Brasil. De certo, não estaria calado diante de tantas barbaridades. Cantaria SOS?

“E nas mensagens/Que nos chegam sem parar/Ninguém, ninguém pode notar/Estão muito ocupados/ Pra pensar/ Oh, seu moço do disco voador/ Me leve com você aonde você for//

Ou proporia mais uma vez “alugar o Brasil”?

“A solução pro nosso povo
Eu vou dá
Negócio bom assim
Ninguém nunca viu
Tá tudo pronto aqui
É só vim pegar
A solução é alugar o Brasil!…

Nós não vamo paga nada
Nós não vamo paga nada
É tudo free!”

Sua mensagem está mais viva do que nunca. “Todo homem tem direito de amar a quem quiser, de viver como quiser/ Faz o que tu queres, pois é tudo da lei/Viva a sociedade alternativa!” 

Raul, diferente dos mortais, resiste ao tempo, inspira novos artistas, teses musicais… É amado e odiado, exaltado, reverenciado e execrado. Artista brilhante, péssimo esposo. Um homem que decidiu não se apegar à vida e morrer do jeito que quis: na esbórnia, dormente, sem sentir as dores de um mundo tão incompreensível.

Feliz 74 anos ao deus que mudou a música brasileira. Que ele esteja convosco, ele está no meio de nós. Amém.

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